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Reportagem: Partidos políticos: da militância de convicções aos “interesses”

GRANDE REPORTAGEM

Partidos políticos: da militância de convicções aos “interesses”

Abílio Ribeiro [Quântica | Conteúdos]

Optam por não dar a cara, evitando assim «demasiada exposição». Preferem prestar
testemunho sob anonimato, sem sequer revelarem dados como a idade e a afiliação política.
Asseguram que só desta forma «evitam-se chatices». Como se recrutam potenciais militantes?
Que promessas fazem as estruturas partidárias? O contrapoder existe no seio dos próprios
partidos? Estas são algumas perguntas a que M. e T. tentam dar resposta. Apesar da relutância
inicial, acabam por partilhar a sua experiência enquanto militantes com experiência quer nas
estruturas regionais, quer nos centros de decisão nacionais. Os partidos a que pertencem
defendem ideologias opostas, mas praticamente comungam das mesmas práticas.

É da Juventude Socialista que têm saído alguns membros do Governo de António Costa
Foto: D.R

Durante o dia, M. tem um emprego igual a tantos outros. Desempenha funções num gabinete
e trabalha das 9h às 17h. Fora do horário laboral, M. desmultiplica-se em inúmeras tarefas,
quer durante a semana, quer aos fins-de-semana. «É quase como ter um segundo emprego,
mas sem ser remunerado por isso. Precisamos de estar sempre disponíveis para reuniões,
preparar acções políticas específicas, observar o que os outros partidos andam a fazer», diz.

M. serve-se do exemplo das últimas eleições autárquicas, nas quais foi um «militante activo a
pedido dos órgãos nacionais» do partido a que pertence. «Tirei dias de férias para dedicar-me,
a tempo inteiro, à campanha de um candidato para uma junta de freguesia. Tratei dos
contactos com entidades locais, organizei as visitas do candidato e estive envolvido em
pormenores como a imagem dos cartazes e a colocação de conteúdos nas redes sociais».
Perante a escassez de recursos, M. ainda conseguiu «pedir uma viatura emprestada a um
amigo e até um sistema de som para promover a campanha nas ruas».

A Juventude Popular em Congresso e com o apoio directo de Cristas
Foto: D.R

A decisão de filiar-se no partido político a que pertence foi tomada «de livre vontade, por
sugestão de amigos comuns». Nos primeiros tempos, passou «muitas noites a colar cartazes,
mas já sabia ao que ia. Se há trabalho para fazer, é para ser feito». Afirma que, logo no início,
prometeram-lhe que «poderia chegar bem longe. Mas isso implicaria dedicação. É o que tenho
feito até hoje». E nada mudou? «Ganhei autonomia para tomar determinadas decisões, como
no caso da campanha às autárquicas, e passaram-me a pedir a opinião sobre assuntos internos
do partido – inclusivamente sobre questões relacionadas com a estrutura nacional. Ter voz já é
um começo. Espero não ficar por aqui», refere.

Recrutar potenciais militantes

T. assume uma postura mais discreta quando lhe é perguntado o que tem feito nas estruturas
do seu partido. Revela apenas que não nega qualquer tarefa atribuída: «tenho os meus ideais,
as minhas crenças e acredito que os partidos políticos podem realmente fazer a diferença. Se
assim não fosse, jamais tomaria a decisão de filiar-me num partido em que me revejo. Não
nego as tarefas que me são destinadas – quaisquer que elas sejam».

O incentivo ao recrutamento de potenciais militantes é, na perspectiva de T., um
procedimento vulgar e que encara com naturalidade. «Não obrigamos ninguém a nada.
Apenas damos a conhecer melhor o trabalho desenvolvido, as causas que defendemos e,
mediante isso, as pessoas são livres de fazerem as suas escolhas. Os dirigentes das estruturas
locais e nacionais apelam a que façamos essa aproximação, o que é natural».

Da Juventude Social Democrata vão saindo quadros do PSD
Foto: D.R

Quanto a episódios caricatos, limita-se a enumerar um: «certa vez, aquando de eleições internas para os
órgãos nacionais do partido, houve um candidato que de predispôs a pagar as quotas de uma
quantidade considerável de militantes. A lista chegou-nos às mãos e prosseguimos com os
contactos». A contrapartida era «o apoio e o voto obediente a que pagou as quotas».

Trabalhando por conta própria, T. consegue gerir o seu tempo em função das necessidades do
partido. Chegou a participar na organização de congressos nacionais, prestando apoio ao
secretariado, por exemplo. Quanto ao contrapoder dentro das estruturas, admite que «ele
existe. Mas é normal. A divergência de ideias e de opiniões até é saudável».

Ainda assim, T. deixa um desabafo: «apenas me incomodam alguns egos que, apercebendo-se
do seu poder, não dão margem de manobra para que outros militantes possam contribuir com
ideias e projectos. Criam grupos de apoio no interior das próprias estruturas e assim ganham
mais força». T. sublinha que esta é uma realidade «vivida também nas estruturas locais. Nos
meios mais pequenos, por exemplo, «não á fácil um militante impor-se quando há um outro
com mais anos de dedicação à causa. Nem mesmo um fracasso eleitoral é suficiente para que
perca força ou influência».

Da convicção para o “interesse”

Alexandre Guerra, consultor de comunicação, explica que «se é certo que, num primeiro
momento, muitos jovens procuram nos partidos uma “tribo” com a qual se identifiquem
(como forma de amplificar a sua voz em termos de intervenção social e, consequentemente,
política), é também verdade que a própria natureza das “máquinas” e “caciques” vai
corrompendo a matriz que motivou originalmente a militância».

Para Alexandre Guerra, um dos problemas dos jovens militantes tem, precisamente, a ver como facto de se «deixarem agrilhoar pelo “carreirismo” político
Foto: D.R

O autor do livro “A Política e o Homem Pós-Humano” (Alêtheia Editores, Lisboa, 2014) avança
que, desta forma, «da militância das convicções passa-se para a militância dos “interesses”,
sobretudo numa lógica de ascensão no seio das juventudes partidárias, que funcionam como
antecâmaras para os lugares de poder. Os militantes de causas transformam-se, assim, em
“políticos” a tempo inteiro, passando a reger-se por um quadro de obediência e disciplina
partidária, onde, por vezes, se sacrifica os ideais pessoais em função da circunstância político-
partidária».

Para Alexandre Guerra, um dos problemas dos jovens militantes tem, precisamente, a ver com
o facto de se «deixarem agrilhoar pelo “carreirismo” político, desligando-se das componentes
da “vida real”, ficando única e exclusivamente dependentes das manobras viciadas dos
corredores da política, esperando que um dia a sua recompensa chegue – seja através de um
lugar elegível numa lista para deputado, seja numa candidatura autárquica ou num lugar de
uma empresa pública ou de Governo».

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