Opinião

Pega de Caras: Nem tudo o que abana o rabo é o Diabo

A profissão de jornalista é sem dúvida uma das mais interessantes da actualidade. Não do ponto de vista financeiro, pois os salários que se pagam aos profissionais não são nada interessantes. Mas nem só de bons salários e do dinheiro vivem os jornalistas.

Por isso um conselho para todos os jovens que pretendem seguir a carreira de repórteres: se a vossa ambição é serem ricos aconselho-vos desde já a escolher uma outra profissão. Talvez a política seja uma excelente opção. Ou então, dedicar-se ao tráfico de drogas ou de influências. E porque não optarem pela carreira de empresário de jogadores e treinadores de futebol. Talvez seja uma boa.

Mas se o vosso sonho for a riqueza de não ter uma vida quotidiana como a de um funcionário público ou de um cangalheiro, vivendo experiências enriquecedores e trabalhando por prazer e por uma sociedade mais justa e transparente, então sejam bem vindos ao jornalismo.

Bem sei que não sou a pessoa indicada para vos dar conselhos, pois há 39 anos que sou jornalista. E posso garantir-vos que durante todo este tempo nunca tive um dia igual. Todos os meus dias como repórter foram sempre diferentes, Desde o acompanhar a Selecção de Portugal até à Guerra na Jugoslávia. Ou do triunfo dos Sandinistas na Nicarágua até ao funeral do escritor Miguel Torga.

Já para não falar na cobertura de uma Volta a Portugal em Bicicleta, um Grande Prémio de Portugal de Motociclismo, umas eleições autárquicas, legislativas ou presidenciais. E ser repórter parlamentar ou desportivo. Ou fazer jornalismo de investigação em diversas áreas, até se encontrar o fio à meada e contar toda a verdade à opinião pública.

O dia-a-dia de um jornalista é recheado de muitas surpresas que vão desde os malabarismos da corrupção aos homicídios, passando pela cobertura de acontecimentos que muitas vezes não estão sequer no programa de ninguém. Maus tratos, pedofilia praticada por padres, corrupção na classe política, milhões desviados por banqueiros sem escrúpulos ou gestores mafiosos. Todas essa experiências valem mais do que um salário chorudo. Garanto-vos!

Ainda em finais de Abril quando acompanhava as negociações do sindicato independente dos motoristas de matérias perigosas, no Ministério das Infraestruturas e Habitação, ouvi o seguinte de um representante do Governo: “os jornalistas são como o Diabo, estão em todo lado e não dão descanso a ninguém”.

Para este idiota governamental, vestir a pele do Diabo é identificar-se como jornalista, marcar presença em lugares chave e fazer perguntas incomodativas. Mas o que seria o Mundo se não houvessem jornalistas que muitas vezes põem as suas vidas em risco para procurar verdades incomodativas.

O que seria de Portugal e da Democracia se não houvesse um nicho de profissionais que ainda acreditam na força do Jornalismo? Não se tinha conhecimento das trafulhices do Berardo, dos desvios de milhões praticados pelo Salgado, Berardo, Vara, Granadeiro, Bava ou Sócrates. Passava-nos ao lado todas as monstruosidades de gestão praticadas pelos administradores do Banco de Portugal. Os abusos monstruosos que ocorreram na Casa Pia.

Os jornalistas são um dos pilares fundamentais da sociedade e da Democracia. Eles existem para denunciar todos os podres que existem na sociedade contemporânea, mas também para divulgar as coisas boas que se vão fazendo no teatro, artes, ciência, música, política, educação e muitas outras áreas da sociedade.

A investigação jornalística quando é feita com rigor e imparcialidade pode abanar com algumas estruturas mafiosas que existem. Abanam com alguns que se dizem sérios, mas que na verdade passam a vida a engendrar esquemas para enriquecer à base de esquemas maquiavélicos e corruptos. Abanam com estruturas e com poderes que pensam estar impunes à lei.

É bom que esta classe profissional se mantenha viva. Que apareçam todos os anos novos estagiários que estão dispostos a ser jornalistas. Repórteres corajosos que possam desmascarar os camaleões que convivem connosco diariamente. Profissionais que possam desmascarar políticos, magistrados, gestores e banqueiros sem escrúpulos. Que possam abanar os poderes político, económico e judicial.

Mas contrariamente ao que muita gente pensa, “nem tudo o que abana o rabo é o Diabo”. E quando se leva o jornalismo a sério, posso garantir-vos que o objectivo é lutar por uma sociedade mais justa e equilibrada. Por um Mundo melhor.

É essa filosofia de vida que me faz continuar a defender uma das profissões mais bonitas que existem. Que me fazem continuar neste trilho minado por “monstros” que recorrem a todos os meios possíveis e imaginários para atingir os seus objectivos.

Ainda hoje pude assistir à intervenção de Carlos César no parlamento. Anunciou que nas próximas eleições legislativas não vai se vai candidatar. Mas mal acabou de anunciar esta sua intenção e já os jornalistas presentes no hemiciclo de São Bento anunciavam à opinião pública que um dos maiores sonhos de Carlos César é ser ministro na próxima legislatura. E o que seria da Democracia se não existissem os repórteres parlamentares? E o que seria…

José Peixe – Jornalista (C.P 552 A)

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